No RS, 26º Grito dos Excluídos planta as sementes de um futuro | Geral

No RS, 26º Grito dos Excluídos planta as sementes de um futuro

Com o lema "Vida em Primeiro Lugar. Basta de miséria, preconceito e repressão! Queremos trabalho, terra, teto e participação!", . Devido à pandemia, este ano foram realizadas manifestações simbólicas, sem aglomerações e com atividades virtuais. A tradicional manifestação popular realizada por movimentos e organizações populares no feriado da Independência do Brasil, por direitos humanos e sociais, recorda que nada se tem a celebrar quando se observa a desigualdade, a exclusão e a violência no país.

No Rio Grande do Sul, o ato contou com momentos culturais, com canto e com a valorização da realidade e da força do povo brasileiro. Teve plantio de árvores, e foi aberto o espaço para o grito de jovens, mulheres, camponeses, moradores das periferias, religiosos e integrantes de movimentos populares. Por mais de duas horas, a manifestação reuniu de forma ampla representantes da diversidade de culturas, lugares e entidades de todo o Rio Grande do Sul.

Para o médico Armando de Negri Filho, coordenador-geral da Rede Brasileira de Cooperação em Emergências (RBCE), o grito é de basta contra a política neoliberal e o governo Bolsonaro. “Tem se radicalizado a destruição dos direitos após o golpe, uma aceleração da desproteção da natureza e dos trabalhadores e um aumento do poder do capital financeiro. Essa aceleração ganha dimensão trágica na desproteção frente à pandemia”, avaliou. Ele chamou a atenção para a anunciada pelo governo.

Negri destacou os diálogos do Papa Francisco com os movimentos sociais, que resultaram no que chama da proteção aos “três Ts”: trabalho, teto e terra. “É como um triângulo que relaciona terra com o bem viver universal que temos que respeitar e integrar na nossa existência. Fazer de forma a preservar os direitos dessa terra, nossa casa comum, projetar cuidados com vida na terra como ecologias necessárias para gerar alimentos, o que dá base à construção material do conforto para todos, sem consumismo exagerado”, afirmou, destacando as iniciativas de produção agroecológica como vanguarda dessa nova concepção cooperativa e solidária.

Para o padre Edinho, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Regional Sul 3 (CNBB Sul 3), o Grito vem de comunidades e de pastorais sociais e é um chamado a pensar que “não basta bater continência a bandeira nacional, temos que falar que essa pátria tem milhares de florestas sendo eliminadas. O verde e o azul do céu estão sendo poluídos pela intolerância, pelo ataque ao meio ambiente e por outras formas que poluem a vida”. Ainda segundo ele, o Grito clama por participação popular e denuncia “que nem tudo está bonito porque a gente sente que tem muita miséria, intolerância e preconceitos na sociedade”.

Saraí Brixner, da Rede Soberania, destacou que o Grito é do povo organizado que está fazendo sua parte frente ao abandono do governo federal. “O que a gente pede é respeito e que os governantes façam sua parte. Estamos vendo quem está sofrendo com os abusos de poder e a perda de direitos e de garantias sociais: é o povo trabalhador que se mobiliza, faz comitês, planta árvores e promove ações como essa que estamos realizando hoje”, enfatiza.

Plantio de árvores em defesa da vida

imagem07-09-2020-20-09-32 Ação foi realizada em praça na periferia do município de São Leopoldo / Marcus Perez / CUT-RS

Durante o ato, destaque para as tomadas ao vivo de plantio de árvores pelas vidas perdidas na pandemia. A iniciativa reforça a campanha em andamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), lançada em 2019, que tem como meta plantar 100 milhões de mudas em todo o país, sendo 7 milhões no estado no Rio Grande do Sul. No Parque Pedro Antônio Maria, localizado na periferia de São Leopoldo, foram plantadas 80 mudas. A ação foi promovida pela Central Única dos Trabalhadores do RS (CUT-RS), em parceria com movimentos sociais, sindicatos e com apoio da prefeitura municipal.

O presidente da CUT-RS, professor Amarildo Cenci, destacou, durante o plantio, a resistência e a defesa da vida e da democracia. “Queimam a Amazônia, matam pessoas. Nós estamos aqui para dizer que vamos resistir, plantar árvores, defender a vida e os direitos. Vamos gritar e juntos reverter essa situação para construir um país mais igual, tanto do ponto vista dos direitos dos trabalhadores quanto do ambiental. Fora Bolsonaro, ele é a morte e nossa luta defende vida e democracia ao seu povo”, afirmou.

Mudas de 110 árvores também foram plantadas na manhã desta segunda-feira em dois locais de experiência de moradia alternativa em Porto Alegre: a Cooperativa Habitacional dos Trabalhadores de Ensino da Rede Privada (Cootepa) e a Cooperativa Sócio Ambiental São Francisco de Assis (Coopchico).

Durante o plantio, Celso Woyciechowski, coordenador da Cootepa, explicou que o plantio é uma ação pela vida. “Nada mais propício que esse plantio simbolizando as vidas perdidas pela covid-19 e pela incompetência dos governantes, em defesa do meio ambiente, contra o desmatamento da Amazônia”, avaliou.

Morador da Coopchico, o vereador porto-alegrense Marcelo Sgarbossa parabenizou as entidades que tiveram a ideia do plantio. “A ação traz a forma solidária de viver. Parabéns às entidades que tiveram a ideia e a colocaram em prática durante a pandemia, num local privado, mas que simboliza a aposta em uma humanidade diferente, que reconhece a cooperação para uma sociedade mais justa”, afirmou.

Diversos Gritos

O ato virtual contou com diversos vídeos trazendo o grito dos movimentos populares, dos indígenas, dos migrantes, dos ciganos, das periferias, das mulheres e de variados rincões do Rio Grande do Sul. O grito do cacique kaingang Jocemar Mariano, da aldeia Goj-jur, do município de Passo Fundo, foi “pela terra, pela vida e contra o genocídio histórico dos povos indígenas. Contra os retrocessos que temos sofrido com meses de um governo fascista e genocida, que quer tirar os direitos que nosso povo vem conquistando com muito suor”.

A venezuelana Maria Laura, que vive na região Metropolitana de Porto Alegre, trouxe o grito de quem chegou ao Brasil em busca de dignidade, mas que sofre preconceito. “Nosso grito é por trabalho, para termos uma moradia digna e alimentação, e por documentação. Também venezuelano, Andres Geraldo era professor de matemática e vive em Pelotas há dois anos. Desempregado, ele tem dificuldades para sobreviver e ajudar sua família que segue na Venezuela. Andres grita por oportunidade.

A cigana Rose Winter, da Pastoral dos Nômades, que representa o circo, os ciganos, os parques de diversão, ressaltou a luta pelo direito de ir e vir. “Que nosso direito seja garantido para fazer nosso trabalho, nossa arte, em todos os lugares com respeito e dignidade”.

Os integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens estadual (MAB-RS) destacaram as lutas contra as barragens e projetos de energia que transformam a água em mercadoria. Entre eles a privatização da água que tramita no município de Erechim e a construção da hidrelétrica binacional Garabi-Panambi, entre Brasil e Argentina.

A Comissão Pastoral da Terra fez um grito pela semente crioula e pela agricultura familiar. Lembrou que o governo Bolsonaro vetou quase integralmente o projeto da Câmara dos Deputados que previa o pagamento de um benefício especial aos agricultores. Além disso, criticou a escalada na liberação de agrotóxicos, mais de 400 desde o início do mandato.

Irmã Lourdes, da coordenação da Feira Internacional do Cooperativismo, que ocorre anualmente em Santa Maria, também criticou a escalada de venenos. “Na região Central gaúcha, gritamos contra o desemprego, o veneno, o feminicídio, monoculturas e todas as formas de exclusão social, especialmente do povo mais empobrecido”.

Marcia Rodrigues, voluntária da Cáritas Pelotas, lembrou que a principal característica do ser humano é a solidariedade. “Ser solidário é ser humano e ser humano é estar junto de quem mais precisa. A gente luta por políticas públicas de qualidade, educação e saúde para todos”.

Izanete Colla, do Movimento de Mulheres Camponesa, no município de Ibiaçá, lembrou que o grito é também contra todo tipo de violência praticada contra as mulheres. “Estamos vivendo a barbárie de feminicídios crescendo a cada dia, estamos sendo mortas pelo fato de sermos mulheres e isso tem que acabar. A vida das mulheres importam”.

Momento inter-religioso

Lideranças de variadas crenças participaram do Grito estadual, pelo Fórum Inter-religioso e Ecumênico do Rio Grade do Sul. Ìyá Sandrali de Oxum, secretária executiva do Conselho do Povo de Terreiro do RS, reforçou a defesa da vida. “Nesse dia de luta, o Fórum Inter-religioso e Ecumênico do RS invoca as espiritualidades plurais comprometidas com direitos, diversidade e democracia”.

Monja Kokai, do Zen Budismo, lembrou que tudo está interligado como se fôssemos um. “Nos reunimos como comunidade de fé para celebrar a vida, para assumirmos nosso compromisso com todo o mundo habitado. O mundo habitado grita sua exclusão e destruição, que a injustiça não nos seja indiferente.”

Louis Marcelpo Illenseer, músico da Igreja Luterana, clamou para que não haja indiferença frente à dor. “As estruturas autoritárias racistas, machistas e neoliberais não podem destruir o nosso país”, afirmou. Também luterana, a Pastora Cibele Kuss lembrou da ancestralidade e clamou: “Que as religiões soltem o grito contra todas as opressões”.

Bispo da Igreja Anglicana, Humberto Maiztegui destacou as populações historicamente perseguidas. “Que as religiões denunciem sempre o fundamentalismo e as perseguições às religiões de matriz africana, os povos ciganos e a espiritualidade indígena. Já o bispo anglicano Francisco de Assis da Silva, destacou que o contexto complicado da pandemia não impede a disposição em protestar e gritar enquanto houver exclusão social. “Não é só o vírus que tem destruído e ameaçado nossa sociedade. Temos a miséria, o preconceito e a repressão fascista de um político e políticos que têm feito do Brasil um tubo de ensaio de sua experiência autoritária e excludente, um governo que pratica a necropolítica”, criticou.

Dom Sílvio Guterres Dutra, bispo católico e coordenador da Ação Sócio Transformadora da CNBB Sul 3, ressaltou que o Grito não tem religião, cor e partidarismo, mas é o grito dos que sofrem, evocando a memória do bispo Dom Pedro Casaldáliga. Ele chamou atenção para a tentação das religiões em abafar os gritos em nome de deus. “A própria religião deve ser um canal para que os gritos possam chegar com segurança e firmeza. Não desejamos o grito falseado de uma independência que não aconteceu ainda e está muito aquém do que se deseja.”

O 26º Grito dos Excluídos estadual terminou com mais um momento cultural. “Se nós plantamos hoje, outros companheiros farão a festa da colheita”, disse padre Edinho, ao apresentar o clipe “Festa da Colheita”, do grupo Unamérica. Assista:

Assista ao 26º Grito das/os Excluídas/os estadual

Fonte:

Edição: Katia Marko

Author: SILVA RICARDO